segunda-feira, 4 de junho de 2018

A vida na aldeia (III)


É primavera, quase verão e o tempo está frio! Hoje chove...
Estou com uma enorme nostalgia e veio-me à ideia o mês de junho passado na aldeia, em criança, nesta época do ano já bastante quente em que os campos verdejantes e com os cheiros tão característicos do alecrim, da murta, do rosmaninho e flor de São João lembravam as noites dos Santos Populares e o Saltar das Fogueiras que se avizinhavam.
Uns dias antes já alguns grupos de rapazes e raparigas, por entre alegres conversas e gargalhadas, se dirigiam aos campos mais próximos para apanhar estas tão aromáticas ervas que, misturadas na lenha,  haviam de contribuir para a alegria de todos.
No fundo era uma brincadeira simples, mas muito engraçada, pelo aspeto cénico que proporcionava numa fase em que a luz elétrica ainda não tinha chegado à aldeia e o resplendor do lume brilhava e iluminava a noite, que na época era como breu.
Em cada rua havia duas ou três fogueiras que pela noite fora eram tomadas de assalto pelos mais afoitos numa disputa que nunca entendi. As crianças como eu limitavam-se, sob o olhar atento dos pais e avós a fingir que saltavam, mas apenas ao lado das ditas fogueiras que crepitavam bem alto.
No fundo era uma brincadeira perigosa, mas que me lembre nunca houve qualquer acidente de maior.
Escusado será dizer que nestas noites todos se deitavam tarde, porque ninguém perdia este espetáculo que só no ano seguinte se havia de repetir.
Santo António, São João e São Pedro não tardam e vivam as velhas fogueiras!



04.06.2018
Ailime
Imagens Google

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A vida na aldeia (II)


A vida na aldeia era essencialmente rural. A pequena propriedade era dominante e quase todos os seus habitantes tinham um pequeno terreno (nalguns casos mais) onde cultivavam os produtos que serviam para a sua alimentação. Eram terras também ricas em pinhais, hoje praticamente devastados pelos últimos e terríveis incêndios que se fizeram sentir no ano passado.
Os campos tinham como principais cultivos o milho, o centeio, a batata e todos os legumes e vegetais essenciais na alimentação mediterrânica. Das oliveiras, que existiam também em grande abundância, era extraída a azeitona com que se produzia o saboroso azeite nos três lagares existentes na aldeia. As vinhas também se cultivavam, não em grande quantidade, mas o suficiente para saborearmos os seus deliciosos cachos de uva havendo também alguns produtores de vinho.
No que respeita a fruta não era muito abundante existindo essencialmente figueiras, laranjeiras, macieiras e ameixoeiras. O melão e melancia eram bastante cultivados, uma vez que os terrenos a isso se prestavam. Com o passar do tempo foram-se experimentando outras árvores de fruto que deram bons resultados.
Não posso deixar de falar de uma das principais fontes que contribuía para a alimentação do povo da minha aldeia: o rio Tejo que a banha num serpenteado azul que se pode observar, a perder de vista, praticamente de toda a região. O Tejo naqueles tempos era riquíssimo em peixe variado de que destaco: sável, lampreia, enguia, saboga, barbo, barbisco, boga e fataça. Por esse motivo existiam na aldeia muitos pescadores que, no Tejo, utilizando os seus picaretos*, tinham o seu ganha-pão.
Hoje, infelizmente, o rio encontra-se altamente poluído e é com grande tristeza que o afirmo. Os peixes têm morrido aos milhares e há zonas do rio que estão praticamente mortas. Tudo isto acontece pela inconsciência e ganância do Homem que põe em primeiro lugar o lucro em detrimento da defesa do meio ambiente e consequentemente da saúde das populações. Existe, desde há vários anos, um homem - o Guardião do Tejo - que tem vindo a denunciar a situação e que neste momento está em vias de ver o seu sonho realizado, um sonho de todos os que amam o Tejo,  a sua recuperação.

*barco típico de pesca do rio Tejo.

Picareto - Foto de Arlindo Marques


Texo: Ailime
02.02.2018
Fotos Google

sábado, 18 de novembro de 2017

A vida na aldeia (I)


Por vezes penso em como treze anos foram tanto na minha vida. Um pequeno lapso de tempo, mas tanto, tanto que vivi e aprendi nesses ainda verdes anos.
Como vivia numa aldeia o contacto com a natureza, que continuo a amar, foi quase de imediato. O que mais me fascinava era o céu, o sol, a Lua e a grandiosidade do firmamento quando à noite salpicado de estrelas eu admirava espantada. E as estrelas cadentes que faziam desenhos a faiscar no céu? Quem teria “inventado” tudo aquilo? Interrogava-me muitas vezes, mas não sabia a resposta e também não perguntava a ninguém.
 Na primavera e no verão os campos salpicados de flores de todas cores eram também o meu encanto. Reparava nas pétalas tão pequeninas raiadas de várias tonalidades. Como eram belas. Por vezes apanhava-as e fazia pequenos raminhos que oferecia à minha avó. Gostava muito de a acompanhar e sempre que podia ia com ela aos mais variados sítios.
Os meus avós maternos de quem tenho tantas saudades eram pessoas do campo. Eram pequenos agricultores e o meu avô fazia ainda trabalhos sazonais. Gostava tanto deles que os acompanhava para todo o lado. O meu avô apesar de ser uma pessoa muito simples (cultivava a humildade) sabia ler e escrever e para a época era uma pessoa culta. Foi ele que me incentivou a ler e para isso as Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian foram a minha primeira fonte. Desde bem pequenina que me habituei quinzenalmente a ir trocar os livros que lia avidamente. Eram dias de muita alegria.


Foto Google
Texto: Ailime
18.11.2017

domingo, 29 de outubro de 2017

Introdução


Eu também tenho uma aldeia, uma aldeia situada à beira-Tejo, onde nasci no inicio da década de 50!
Vivi lá apenas durante treze anos e fui arrancada às minhas queridas origens de forma abrupta, o que me deixou deveras triste, revoltada, não tendo palavras para explicar o que senti. Foi um desgosto enorme que ainda hoje ecoa no meu coração.
Durante bastantes anos não me foram permitidos contactos com quem lá deixei e tanto amava – os meus avós e os meus amigos de infância.
Foi tudo para meu bem e de minhas irmãs, como me foi dito na altura, porque os colégios eram muito caros e em Lisboa havia Escolas e Liceus onde os estudos ficavam mais baratos.

Assim se iniciou a minha vida nos arredores de Lisboa, onde ainda vivo. São já muitos anos passados, mas lembrei-me de criar este espaço para de vez em quando falar de hábitos e memórias que tenho daquele tempo de que tenho tantas saudades.
Não sei quando vou voltar a escrever. Talvez quando o meu coração ditar.