terça-feira, 23 de junho de 2026

Memórias de verão, nas férias grandes

Quando, em junho, o calor já abrasava os campos e a aldeia ficava deserta, porque toda a gente se recolhia em casa para se proteger das altas temperaturas, iniciavam-se as férias escolares, que para mim eram um tormento. Eram, de facto, muito extensas.

Quase quatro meses sem aulas eram-me muito penosos, porque eu gostava imenso da escola. Estudar as lições e tudo o que aprendia era, para mim, como entrar num mundo até então desconhecido e de que tanto gostava.

As cem cópias e outros trabalhos que a senhora professora nos passava para fazermos durante esse período, eu concluía-os muito rapidamente, e o tempo parecia nunca mais passar até poder voltar ao contacto com a professora e com o quadro preto.

Somos três irmãs e brincávamos muito, mas, no verão, não se podia andar na rua, porque o sol escaldava.

Depois do almoço, corríamos para a casa dos meus avós maternos que, menos exposta ao sol, tinha uma ampla sala de entrada onde nos deixavam brincar à vontade. Recordo-me de que, com as cadeiras e as cobertas das arcas dos cereais, improvisávamos "comboios" onde fazíamos as nossas viagens imaginárias.

Era muito divertido. Não me recordo se dormia a sesta. Os meus avós, sobretudo o meu avô, dormiam-na, porque de madrugada ia cortar a água numa vala que corria junto das propriedades para a encaminhar para uma represa. Havia uma escala entre os vários proprietários para esse trabalho.

Durante a manhã, o meu avô sachava a terra e tratava dos produtos hortícolas que plantava ou semeava. Só depois, pela tardinha, quando o sol já declinava, ia para o Vale, próximo da aldeia, regar os seus mimos de então.

Lembro-me de que era tempo do feijão-verde, dos tomates, dos pepinos, das melancias, dos melões e das ameixas amarelas que havia ao fundo do terreno e de que eu tanto gostava. Nessa altura, os cachos de uvas já começavam a formar-se e haveriam de nos deliciar mais para o final do verão.

Os melões e as melancias eram semeados no Vale Grande, mais distante, terra de milho, abóboras e também de uvas, nas encostas que o rodeavam.

Mas aquilo de que mais me lembro e que ainda hoje recordo com muita saudade eram os "lanches", compostos por tomates lavados em água fresquinha, cortados em quatro e salpicados com um pouco de sal, que o meu avô levava sempre num pequeno pacote. Havia também pepinos cortados em pedaços e ameixas amarelas, sempre muito frescas e saborosas.

O meu avô era um ser excecional: muito bondoso, paciente e trabalhador. Ele e a minha avó foram os meus ídolos de sempre.




Emília Simões
Junho/2026



sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Quando o circo chegava à aldeia



Nos anos 60 do século passado, muitas vezes, já ao entardecer,  o circo chegava à aldeia e instalava-se no Largo principal que ali existia na época e logo os intervenientes eram rodeados da criançada que ali acorria como abelhas no cortiço.

Estendiam um pano redondo no centro do largo e ali se desenrolava toda a magia daquele pequeno circo itinerante!

Do que tenho memória são dos Robertos (fantoches de luva). De caráter popular o repertório do teatro de robertos era composto por textos de tradição oral, de sabor popular, com direito a muito improviso. Novos e velhos, crianças e adultos, acorriam aos primeiros sons agudos da palheta, prontos a deliciarem-se com os episódios cómicos que aqueles bonecos protagonizavam com ritmo e destreza.

Não me recordo a ordem por que eram apresentados, mas havia o Homem Fogo que deixava todos boquiabertos com sua agilidade em engolir e expelir o fogo, os malabaristas, os palhaços, enfim um manancial de representações que deixavam todos maravilhados.

No dia seguinte já não restavam quaisquer vestígios da passagem do circo por ali! Outra aldeia os aguardava.


Ailime
Outubro/2023
Imagem da Net


sábado, 7 de maio de 2022

O amolador (amola-tesouras)

Hoje pela manhã ao efetuar uma tarefa doméstica, apercebi-me que, da rua, vinha um som que me era familiar, mas que já não ouvia há imensos anos! Aproximei-me da varanda para verificar se as minhas suspeitas eram certas e não me enganei. Era um amola-tesouras, que passando na sua bicicleta, a pé, com a respetiva caixa de ferramentas, se fazia anunciar com a sua flauta tão característica! O som era o mesmo de há muitos anos, do século passado!

Lembrei-me dos tempos da minha infância, na aldeia, em que era usual, praticamente todas as semanas, o amolador passar e como tinha clientela naquele tempo!

Havia sombrinhas (chapéus de chuva), sempre para consertar, facas e tesouras para afiar e até peças de barro como alguidares para serem consertados, assim como algumas peças de louça rachadas, onde eram colocados os chamados "gatos", que eram tirinhas de metal que agarravam as partes quebradas e assim essas peças de louça eram reparadas e recuperadas.

Eram tempos em que a pobreza era imensa e tudo ou quase tudo era bem preservado.

No inverno o amola-tesouras tinha mais trabalho, mas lembro-me que mesmo em dias ensolarados ele aparecia e era costume dizer-se que anunciava chuva!  Quem se lembra dos amoladores?



 Texto Ailime
07.05.2022

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

Novelos de trapos


Desde criança que os idosos me cativaram e sempre convivi com eles com muito carinho e destaco os vizinhos dos meus avós com os quais privava mais de perto. Apreciava muito as suas conversas e histórias de vida que me deixavam fascinada e muitas vezes pensativa, porque não entendia determinados factos que só mais tarde viria a deduzir a que se referiam.

Recordo que a maioria eram trabalhadores do campo (homens e mulheres) que trabalhavam até muito tarde. Não havia aposentações e só quando as forças começavam a faltar é que ficavam em casa.

Naqueles tempos as famílias eram habitualmente numerosas e era estabelecida a periocidade em que ficariam na casa de cada filho, assim como a prestação de cuidados e alimentos.

Repartiam os seus teres e haveres e os filhos cuidavam deles com tudo o que podiam para o seu bem-estar. Muitos ficavam nas suas próprias casas, outros iam morar para casa de seus filhos. Outros  ainda  permaneciam uma semana, um mês, rotativamente em casa de cada filho.

Recordo-me que às senhoras mais idosas eram dados, para passar o tempo, pedaços de tecidos de roupas que já não eram usadas, que elas recortavam em tiras, que iam cosendo e com os quais dobavam novelos de trapo, como eram chamados. Esta atividade era normalmente efetuada sentadas à porta de casa aproveitando os raios do sol nos dias mais frios.

Esses novelos mais tarde eram trabalhados nos teares (de que já falei aqui) e davam origem a mantas e colchas que todas as famílias usavam.

Era uma forma de reutilizar o que aparentemente já não tinha préstimo.

Veio-me isto à ideia, quando há dias vi junto dum contentar do lixo um pedaço de tecido abandonado e lembrei-me do tanto desperdício que atualmente produzimos!

Compreendo que a vida hoje é diferente e há muita oferta e que muitas de nós não teremos tempo para fazer os tais novelinhos com os quais poderíamos tecer tapetes e muitas outras coisas de utilidade doméstica.

É mais prático ir aos armazéns dos chineses onde encontramos os novelos de trapilho que vieram substituir esta atividade.

Mas, neste tempo de confinamento que atravessamos, era talvez o ideal para remexer nos nossos armários e decerto nos surpreenderíamos com a quantidade de peças que poderíamos dispensar para os tais novelinhos e com eles criar artes para dar um toque diferente num qualquer recanto de nossas casas, além de outras utilidades diversas.


Texto
Ailime
25.02.2021


sexta-feira, 1 de maio de 2020

A Fonte da aldeia no 1º de Maio

Hoje é o Dia do Trabalhador, mas naquela época dos anos cinquenta e sessenta do século passado, por vivermos sob o jugo do regime fascista, esta data não era comemorada, porque as represálias eram tremendas. 

Foto da fonte à época Créditos: DR
 No entanto, neste dia, na minha aldeia havia uma tradição que todos os anos se repetia.
A Fonte da freguesia e uma escadaria mesmo em frente, do outro lado da rua, eram engalanadas com variadas flores, algumas envasadas, pelos jovens da aldeia durante a noite. Logo pela manhã era uma alegria e dava gosto ver aquele mar colorido e perfumado.

Durante anos pensei que era uma forma dissimulada de comemorar o 1º de maio.
Recentemente descobri que esta tradição tinha outro significado.
Os rapazes solteiros "assaltavam” durante a noite e madrugada desse dia os quintais, jardins e varandas das raparigas por quem estavam interessados ou enamorados e enfeitavam a Fonte, que se localizava no centro da aldeia. No dia seguinte quando as raparigas iam à fonte buscar água ficavam intrigadas ou aborrecidas por verem lá os seus vasos, mas, entretanto, os rapazes apareciam e era o pretexto para meterem conversa com elas. Muitos namoros assim se iniciaram e a fonte passou a ser conhecida pela fonte casamenteira.
Ainda me recordo de, ao final da tarde, principalmente no verão, o recinto da fonte ser o ponto de encontro de rapazes e raparigas para amenas conversas ou namoricos. 
Deste facto me deu também testemunho a minha mãe.

Um dos fontanários da atualidade lindamente enfeitado

Esta tradição não terminou e nos últimos anos foi alargada aos vários fontanários que atualmente existem na freguesia.
Neste momento não são só os rapazes que os enfeitam, mas outros populares que, com todo o esmero, querem que a sua fonte seja a mais bonita. 

Uma tradição muito antiga que foi passando de geração em geração e que o povo quer manter.

30.04.2020
Imagens: Google

domingo, 5 de abril de 2020

Ofícios da minha aldeia 2 (XIII)

Na continuação do artigo sobre os ofícios da minha aldeia e para finalizar vou  enumerar mais alguns, cujas  atividades  eram muito importantes para o desenvolvimento da freguesia naquela época, finais dos anos 50 e inícios dos anos 60 do século passado. Hoje falarei do ferrador, do albardeiro, dos sapateiros, dos pescadores e do fabrico dos picaretos. 


Não muito longe do centro da aldeia, num enorme barracão anexo a uma residência existia  a oficina do ferrador.
Sempre que por ali passava gostava de observar o ferrador a alisar e, porventura, a limpar os cascos dos burros, éguas e mulas para finalmente pregar as ferraduras. Um trabalho árduo que decerto exigiria muita perícia dadas as características dos animais.


Ao lado da casa dos meus avós maternos vivia o ti Chico Albardeiro, que na sua oficina executava como o nome indica as albardas, os cabrestos e outros acessórios essenciais aos animais que ajudavam os donos nos trabalhos do campo.




Destaco também os  três sapateiros: o Ti Parente, o Ti Augusto e o ti Zé Duarte,  que manufaturavam todo o tipo de calçado para os habitantes da aldeia e que também percorriam as feiras para calçar toda uma população que vivia em lugares mais recônditos do concelho.  Estes eram já na época fonte de emprego na freguesia.
Recordo que, naqueles tempos em que o dinheiro era parco, se mandava consertar os sapatos  e colocar meias solas.



A aldeia onde nasci é formada por várias colinas, de onde se avista o Rio Tejo, que lhe corre nas entranhas. As vistas são deslumbrantes e não há ninguém que lhe seja indiferente. Todos amamos  o Tejo.

PESCA NO RIO TEJO JUNTO A ALVEGA - ABRANTES ABRIL 2017 - YouTube

Nos anos em que as águas ainda não eram poluídas havia bastantes pescadores, que ali ganhavam o seu sustento e proporcionavam aos seus conterrâneos variedade e qualidade de peixe, que esta vossa amiga, logo em pequenina, se habituou a apreciar.
Ao lado da casa de meus pais morava o Ti Vermelho, um pescador, a quem a minha mãe comprava o peixe logo pela manhã, quase acabado de pescar. 
No inverno, no tempo das cheias, o sável e a saboga faziam as delícias dos apreciadores.
Depois não faltavam as bogas, os barbos, os barbiscos, as carpas, as lampreias e as enguias.
Estes são alguns dos que mais recordo.
Ainda sobre o Ti Vermelho gostava imenso de o ver consertar as redes, trabalho que efetuava num pequeno recanto junto à casa.

Consertando a rede Foto de Reynaldo Monteiro | Olhares ...

Por fim refiro os picaretos, barcos de pesca, que  eram construídos pelo ti Fontes, calafate e pescador que faleceu  em 2017, com 90 anos, que dedicou a sua vida inteira ao Tejo. Construiu mais de 300 picaretos
.
Picareto
O Ti Fontes

Os picaretos irão fazer parte dum Núcleo Museológico do Concelho dedicado a artes e ofícios relativos à pesca, nomeadamente da minha aldeia.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Regionalismos da minha aldeia (XII)

Hoje lembrei-me de partilhar algumas palavras características da minha região, mais concretamente da minha aldeia, que se situa  na província da Beira Baixa - Distrito de Santarém. Com o tempo algumas caíram em desuso, mas estão todas dicionarizadas (Dicionário Priberam da Net), com excepção de duas palavras que abaixo assinalei.


Alacrau -  escorpião

Arreganhar - arripiar-se; tremer de frio

Arremelgar - abrir muito os olhos

Aventar - deitar fora

Bácoro e Tô - porco

Baraço - cordel

Bucha - lanche; merenda

Cachopo - criança

Camarinha * - granizo

Caramelo - camada de gelo que se forma no inverno; muito frio

Conho -  pedra redonda e lisa

Cruzeta - cabide

Desenculatrado** - escangalhado

Engadanhado -  com as mãos enregeladas

Engonhar - trabalhar de má vontade ou devagar

Forro - sótão

Fressura - vísceras comestíveis dos animais

Furda - pocilga

Gandulo - vagabundo

Mal-enjorcado - que se vestiu à pressa ou de forma atabalhoada

Quedo - Quieto

Tanganho - ramo seco de árvore utilizado para atear o lume

Testo - tampa de panela


*Não encontrei

** Não encontrei


A utilização destas  palavras e muitas outras usadas em todo o País contribuem para o enriquecimento da Língua Portuguesa. Devemos preservá-las e por esse facto aqui as deixo registadas.

Ailime
03.12.2019

terça-feira, 27 de agosto de 2019

A Festa da minha aldeia (XI)


As festas da minha aldeia continuam a efetuar-se no verão, no mês de agosto, em honra de Nossa Senhora das Dores, padroeira da freguesia. São cerca de três dias no fim de semana próximo de 15 de agosto, dia da Senhora da Assunção.
Lembro-me que, na década de 60, alguns dias antes as ruas eram juncadas e enfeitadas com bandeiras coloridas, sinal de que a festa se aproximava. A Festa como era chamada era um grande acontecimento na época para a população local e também para os muitos forasteiros que ali acorriam. Durante o ano não havia distrações e as expetativas focavam-se naqueles dias que eram bastante animados.
A abertura do grande dia, logo pela manhã, era feita por lançamento de foguetes estrondosos e pela Banda do concelho. Ao som de bombos e outros instrumentos lembro-me de acordar sobressaltada, mas logo me lembrava que era o início da Festa. Ao mesmo tempo que a banda percorria as ruas da aldeia ia parando junto das portas para o peditório habitual, que penso se destinaria a ajudar nas despesas.
Como hoje já havia os comes e bebes e no local, centro do arraial, eram dispostas imensas mesas e cadeiras onde cada um se ia sentando tentando escolher o melhor lugar em frente do palco improvisado, onde iriam desfilar os artistas contratados e se efetuavam os bailes ao som de conjuntos musicais. Estes animavam as tardes e os artistas atuavam à noite.
A quermesse com as suas rifas era também um local onde os mais miúdos gostavam de acorrer, "para ver se saía alguma coisa"!
Como só em 1964 a eletricidade foi inaugurada, até então utilizavam-se geradores elétricos e era uma alegria ver tudo iluminado. Por vezes havia o inevitável apagão...
A Festa era também o pretexto para as raparigas estrearem vestidos, qual deles o mais bonito, para atraírem a si, quem sabe, o futuro marido. A confeção dos modelos, no maior dos segredos, efetuava-se bastante tempo antes, não fossem as três modistas da aldeia não darem conta do recado.
Posso dizer que as moçoilas da minha aldeia eram muito vaidosas e caprichosas com as suas roupas festivas.


No último dia, domingo, celebrava-se a Missa seguida da procissão onde seguiam os andores com as imagens dos santos e também com as fogaças, que percorria as ruas enfeitadas de juncos e flores. Nas janelas e varandas podiam apreciar-se bonitas colchas dependuradas.
No final da procissão era feito o leilão para venda das fogaças cujo produto revertia, neste caso, para a igreja.
A Festa estava a chegar ao fim !
À noite depois da atuação do último artista em palco éramos brindados com um grandioso fogo de artificio, com os morteiros a atroar pelos ares a saudade que já se sentia pelo final da Festa.

Ailime
27.08.2019
Fotos (in loco) retiradas do Google
Autor Arlindo Marques

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Ofícios da minha aldeia - 1 (X)

Na minha aldeia, sendo sede de freguesia, existia uma enorme e diferenciada capacidade de criar. Muitos eram os artífices que se dedicavam às mais variadas artes ou ofícios, assim os classifico.
Para além das tecedeiras de que é exemplo a Ti Gaiata a que aludi no post anterior, existiam também os cesteiros, o peneireiro, o latoeiro, o forjador, o ferrador, os sapateiros e o saudoso Ti Fontes,  um artista no fabrico dos picaretos (barcos), que ainda hoje navegam nas águas do Rio Tejo. 
Quase no centro da aldeia já a caminho da Fonte Velha lembro-me de, quando ia visitar uma das minhas tias, pelo caminho, parava próximo do cesteiro que, com as suas ágeis mãos executava variados cestos em vime.


O peneireiro, um senhor muito simpático, que apesar da sua avançada idade ainda se encontra entre nós, contou-me há tempos no Lar da Freguesia, onde agora reside, que outrora havia percorrido muitas e muitas feiras com as suas peneiras e outros trabalhos, montado numa bicicleta! Atualmente  tem como passatempo a escrita e posso testemunhar que escreve muito bem.


Ao fundo da Rua Principal e cortando à esquerda, próximo da Igreja, encontra-se a casa do Ti Latoeiro, como era conhecido, onde no rés do chão tinha a sua oficina. Era mestre no manusear da folha de flandres.


Na rua dos meus avós não muito longe da sua casa, vivia e trabalhava o forjador (ferreiro), senhor que sempre vi dentro da sua oficina e  de quem nunca soube o nome. Só sei que, quando ali  passava  o via a martelar com muita energia pedaços de ferro incandescentes, com que ia moldando as enxadas e outros utensílios agrícolas. 


Continua....

Ailime
09.05.2019

 Imagens Google 
(Procurei as que mais se assemelham às minhas memórias).

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

A Ti Gaiata (IX)


A Ti Gaiata, como todos na aldeia a chamavam, era uma senhora que além de tecedeira era também parteira. Ainda hoje não sei se este era o seu verdadeiro nome ou se era alcunha. 
Só sei que era uma pessoa muito simpática e alegre e cheia de genica. Era viúva e vestia sempre de escuro, com um lenço preto atado na cabeça e sempre com um sorriso nos lábios. 
Lembro-me de a ver no seu tear confecionando bonitas colchas de lã ou simplesmente mantas de trapos. Como ela morava perto da nossa casa, por vezes ia visitá-la, porque gostava de a ver manejar os pedais do tear ao mesmo tempo que fazia deslizar o pente com o fio em constantes movimentos, para cá e para lá... Assim nasciam lindas obras de arte. 
Que me recorde era a única parteira da aldeia e no dia em que eu nasci teve de fazer dois partos, o que não seria muito vulgar num meio tão pequeno. O meu durante o dia e à noite o de um robusto rapaz, de seu nome Luís. 
Ainda não tinham passado dois anos, ao nascer do sol de um dia de maio, colocou-me no colo uma mana, eu que acordara no berço com os olhos muitos abertos, decerto ao sentir algum alvoroço no quarto. Claro que não me recordo de nada, tendo sido a minha mãe que mais tarde me contou. A quem me perguntasse quem me tinha dado a menina, a minha resposta era sempre "Ti Gaiata"! 
Era também a Ti Gaiata que nos perfurava as orelhas com a sua mestria para o uso dos brincos. 
O método era bastante doloroso e a minha mãe arrependeu-se por não ter posto fim a esta tradição no que respeita a suas três filhas. 
Entre o tear e os partos a Ti Gaiata preenchia assim os seus dias na aldeia. 
Como eu, muitos dos meus conterrâneos lhe estamos eternamente gratos, por nos ter ajudado a ver a luz do dia. 




Ailime
24.01.2019
Imgens
Google

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

O Natal da minha infância (VIII)

Atualizado


O Natal na minha aldeia nos anos cinquenta e sessenta do século passado era muito diferente do atual. Bastante simples, mas centrado essencialmente na família. Não havia centros comerciais como hoje para fazer compras e as luzes que atualmente quase nos cegam eram inexistentes, porque não havia luz elétrica. Só em 1964 foi inaugurada, ato a que não tive o prazer de assistir, porque nesse ano viemos morar para os arredores de Lisboa. 
Voltando ao Natal. Este processava-se de forma muito simples. Habitualmente passávamos a noite de Natal em casa dos meus avós maternos, sentando-nos depois do jantar em redor da lareira, onde a minha avó fazia as tradicionais filhoses, num grande tacho com azeite sobre o lume, com a ajuda de minha mãe. Era um ritual muito desejado e aconchegante, porque as noites de dezembro eram extremamente frias e ali o calor aquecia-nos o corpo e a alma. Depois de fritas as filhoses iam sendo colocadas num grande alguidar onde eram polvilhadas com açúcar e canela. 
Tão boas que eram ainda quentinhas! 
A noite ia passando e o sono ia-se apoderando de nós (eu e minhas duas irmãs) e já a altas horas da noite o meu avô acompanhava-nos a casa, uma vez que o meu pai, que trabalhava em Lisboa, nem sempre era dispensado para poder estar presente nestes dias festivos. 
Chegadas a casa e antes de nos deitarmos íamos até à cozinha acompanhadas pela minha mãe, onde colocávamos os sapatinhos na lareira para que o Menino Jesus, que havia de descer pela chaminé, deixasse os tão ansiados presentes, que no nosso caso eram bem escassos e modestos. 
De manhã, mal acordávamos, lá íamos a correr ver se o Menino Jesus não se tinha esquecido de nós. 
Os melhores presentes eram sempre os vestidos novos, muito quentinhos, que a minha mãe nos fazia e que estreávamos nesse dia para ir à Missa de Natal logo pela manhã. 
Antes ainda corríamos as ruas e o centro da aldeia, que era próximo, para admirar os presépios que os comerciantes expunham nas montras das suas lojas. Qual deles o mais bonito. Eu gostava imenso de apreciar os detalhes ao ínfimo pormenor: o Menino Jesus deitado nas palhinhas, Nossa Senhora e São José vigiando, o burro e a vaca aquecendo o Menino, os pastores e as ovelhas, os lagos, as pontes, tudo salpicado de farripas de algodão branco, imitando a neve. Até parecia que se ouviam os anjos a cantar: "glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade". 
O Natal de que me recordo, na minha infância, era simplesmente, assim.... Sem brinquedos, sem árvore de natal, mas com muito amor e alegria no seio da família.



Santo e Feliz Natal!
Próspero Ano Novo!

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Imagens (filhoses)
Daqui (Blog dos Forninhenses)

Receita (Gentileza da Paula do "Blog dos Forninhenses")
Aqui

Presépio
Google

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

Matança do porco (conclusão) VII


Conclusão 

Depois da pesagem do porco, este era aberto para lhe serem retirados o baço, o fígado, o coração e outras miudezas, assim como as tripas que no próprio dia eram levadas num grande tabuleiro de madeira para um riacho, onde nas suas frescas e límpidas águas correntes eram bem lavadas e raspadas com vinagre, laranja e limão. 
Mais tarde serviriam para o enchimento das morcelas, assim como o bucho do porco. 
Entretanto, ao lume, na velha lareira, ia fumegando a comida da matança  que além de uma sopa bem forte era constituída de, pelo menos, um prato feito com a carne do porco, nomeadamente com o baço, fígado e o coração cortados em pedaços e sangue cozido temperados com alho, cominhos e cravinho entre outros temperos, sendo conhecido este prato por Cachola. 
No dia seguinte era feita a desmancha do porco separando-se o toucinho, o entrecosto, os lombos os ossos da espinha, as pernas e as pás, aproveitando-se estas últimas para presuntos e chouriços, respetivamente. 
A carne da pá e outras eram cortadas em pedaços pequenos que em grandes alguidares de barro eram temperados com sal, alho, colorau e vinho branco ficando pelo menos oito dias neste preparado. 
Neste dia recordo-me que era feita uma sopa com o espinhaço do porco com massas de cotevelinhos  aromatizada com hortelã que era  uma delícia. 
A minha avó fazia também um lombo na frigideira temperado com laranja que era de comer e chorar por mais.  O meu avô costumava retirar dos alguidares da carne alguns pedacinhos com os quais fazia umas deliciosas espetadas na brasa. 
No terceiro dia da matança, a minha avó com a ajuda da minha mãe fazia o enchimento das morcelas. 
Em seguida eram escaldadas em água a ferver e penduradas no fumeiro. 
Estas morcelas ainda frescas eram deliciosas grelhadas na brasa.  
À ceia era servido um prato que a minha avó fazia numa caçarola com base na mioleira do porco desfeita (os temperos já não me recordo) e broa de milho desfeita também. Só sei que ainda hoje guardo o paladar desse manjar, assim como dos outros que atrás referi. 
Mais tarde seria feito o enchimento dos chouriços que também iriam para o fumeiro. Os presuntos   depois de devidamente salgados e untados salvo erro com azeite e colorau eram pendurados para secarem. 
A minha avó fazia ainda enchidos com tiras de lombo lardeados com toucinho que, depois de fumados, eram um verdadeiro petisco. Habitualmente estes enchidos eram comidos mais tarde, depois de passado o tempo necessário no fumeiro. 
Por último eram feitas as farinheiras, que como o nome indica levam farinha e uma gordura especial do porco, cujo nome não posso precisar, além de colorau e massa de pimentão.
O toucinho e outras carnes eram salgados e guardados nas salgadeiras (arcas onde se guardavam e conservavam as carnes).
São estas as minhas memórias da matança do porco. Faltam alguns detalhes que devido à minha pouca idade não retive.