terça-feira, 23 de junho de 2026

Memórias de verão, nas férias grandes

Quando, em junho, o calor já abrasava os campos e a aldeia ficava deserta, porque toda a gente se recolhia em casa para se proteger das altas temperaturas, iniciavam-se as férias escolares, que para mim eram um tormento. Eram, de facto, muito extensas.

Quase quatro meses sem aulas eram-me muito penosos, porque eu gostava imenso da escola. Estudar as lições e tudo o que aprendia era, para mim, como entrar num mundo até então desconhecido e de que tanto gostava.

As cem cópias e outros trabalhos que a senhora professora nos passava para fazermos durante esse período, eu concluía-os muito rapidamente, e o tempo parecia nunca mais passar até poder voltar ao contacto com a professora e com o quadro preto.

Somos três irmãs e brincávamos muito, mas, no verão, não se podia andar na rua, porque o sol escaldava.

Depois do almoço, corríamos para a casa dos meus avós maternos que, menos exposta ao sol, tinha uma ampla sala de entrada onde nos deixavam brincar à vontade. Recordo-me de que, com as cadeiras e as cobertas das arcas dos cereais, improvisávamos "comboios" onde fazíamos as nossas viagens imaginárias.

Era muito divertido. Não me recordo se dormia a sesta. Os meus avós, sobretudo o meu avô, dormiam-na, porque de madrugada ia cortar a água numa vala que corria junto das propriedades para a encaminhar para uma represa. Havia uma escala entre os vários proprietários para esse trabalho.

Durante a manhã, o meu avô sachava a terra e tratava dos produtos hortícolas que plantava ou semeava. Só depois, pela tardinha, quando o sol já declinava, ia para o Vale, próximo da aldeia, regar os seus mimos de então.

Lembro-me de que era tempo do feijão-verde, dos tomates, dos pepinos, das melancias, dos melões e das ameixas amarelas que havia ao fundo do terreno e de que eu tanto gostava. Nessa altura, os cachos de uvas já começavam a formar-se e haveriam de nos deliciar mais para o final do verão.

Os melões e as melancias eram semeados no Vale Grande, mais distante, terra de milho, abóboras e também de uvas, nas encostas que o rodeavam.

Mas aquilo de que mais me lembro e que ainda hoje recordo com muita saudade eram os "lanches", compostos por tomates lavados em água fresquinha, cortados em quatro e salpicados com um pouco de sal, que o meu avô levava sempre num pequeno pacote. Havia também pepinos cortados em pedaços e ameixas amarelas, sempre muito frescas e saborosas.

O meu avô era um ser excecional: muito bondoso, paciente e trabalhador. Ele e a minha avó foram os meus ídolos de sempre.




Emília Simões
Junho/2026